Disputa acirrada por protagonismo no Governo Bolsonaro

Publicado em 16/03/2019 às 21h00
Presidente da República, Jair Bolsonaro
Presidente da República, Jair BolsonaroFoto: Marcos Corrêa/PR

 Militares, olavistas, equipe econômica, civis notórios como Sérgio Moro e os próprios filhos. Dois meses e meio após o início do mandato, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) ainda tem o desafio de conciliar os diversos grupos do governo e de suas agendas às vezes conflitantes.

A disputa por protagonismo veio à tona nos últimos dias com a troca de farpas entre o "guru" do governo, o filósofo Olavo de Carvalho, e o vice-presidente Hamilton Mourão, porta-voz da ala militar. O imbróglio entre ideólogos e militares levou o ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, a fazer uma série de demissões no MEC. Terceiro maior orçamento da Esplanada (R$ 122 bilhões), o ministério teve três secretários-executivos, segundo cargo no comando, em três dias.

Os dois grupos também patrocinam uma corrida por cargos estratégicos como a embaixada do Brasil nos Estados Unidos e a coordenação da comunicação do presidente.

"A gente pode considerar essa disputa por protagonismo como um comportamento normal da ocupação de novos governos. Na mudança do governo Fernando Henrique Cardoso para o governo Lula também houve uma disputa para ver que forças ocupariam os principais espaços. O que é diferente, além da composição ideológica desses grupos, é que o governo seguiu a ideia de compor os ministérios sem a tradicional divisão com os partidos políticos. Você gera uma disputa que não necessariamente trouxe dividendos políticos para o presidente no Congresso", avalia Priscila Lapa, professora de Ciência Política da Facho.

Grupos
Hoje, os militares são o núcleo mais numeroso no governo. No primeiro escalão, dos 22 ministros, oito integram as Forças Armadas. A ala dos ideólogos, formada por ex-alunos de Olavo, representa alguns dos temas centrais para a campanha do presidente na educação e nas relações exteriores. Embora seja um círculo menor, esse grupo está muito próximo dos filhos do presidente, que têm protagonismo importante nas prioridades de Bolsonaro.

Para contemplar agendas defendidas durante a eleição, o chefe do Executivo escolheu uma equipe econômica de matriz liberal, representada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Com o argumento anticorrupção, ele conseguiu ter o ex-juiz da Lava Jato Sérgio Moro como ministro da Justiça e Segurança Pública. Os evangélicos são vocalizados pela ministra da Mulher e Direitos Humanos, Damares Alves. Os agronegócio é representado pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina. No braço político, estão nomes do DEM, como o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni.

"A família Bolsonaro é o núcleo mais complicado. Embora seja o mais próximo, pela consanguinidade. Mas filho não é cargo público. Esse é o núcleo mais controvertido porque ele é contestado por todos, menos o presidente. Até porque filho não pode ser demitido", ressalta o cientista político Arthur Leandro, professor da UFPE.

"Os três filhos têm um jeito muito próprio de atuar em defesa do pai, não exatamente da presidência da República. A disputa de Carlos Bolsonaro com Gustavo Bebianno, por exemplo, gerou dificuldade para o governo, porque o ministro era um dos articuladores com o Congresso. Por mais importante que Guedes ou Moro sejam, se os filhos entenderem que algo que eles propuseram é contrário aos interesses do pai, eles vão abrir uma guerra. Isso acaba gerando impasse e instabilidade. Eles acabam sendo mais um fator de ruído do que de pacificação", defende Leandro.

Militares
Apesar disso, o sociólogo Aécio Gomes de Matos lembra que, sempre que enfrenta uma crise, o presidente recorre aos militares como um fator de estabilidade. "Eles nunca foram tão fortes do ponto de vista da interferência política. É comum gente da esquerda dizer que a melhor coisa do governo Bolsonaro é a tutela dos militares. O próprio Mourão tem sido usado, aqui e acolá, como um freio de arrumação das decisões do governo", justifica.

Na visão dele, nomes como Onyx e Moro têm "ficado meio de lado" dentro do governo. "A partir do momento que decisões tomadas por eles são revertidas, parece que houve um nível de desautorização. Falo de ter voltado atrás na nomeação de Ilona Szabó (escolhida para compor o Conselho Nacional de Segurança, mas vetada pelo presidente). Eu sempre disse que a escolha de Moro trazia expectativas positivas quanto ao combate à corrupção e ao crime organizado. Mas, hoje, acho que ele está fragilizado", descreve.

Onyx
Embora já tenha sido visto como principal interlocutor político do governo, o ministro Onyx Lorenzoni também parece ter perdido espaço. Na semana em que o Congresso definia a composição e o comando das comissões temáticas, inclusive daquelas por onde tramitaria a reforma da Previdência, Onyx viajou em missão para a Antártida.

"Um dado que acho relevante é o papel do presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Embora ele não seja considerado assim nesse instante, ele está atuando como um eixo de apoio ao governo Bolsonaro. Maia é uma espécie de primeiro-ministro de Bolsonaro no parlamento. Está tendo grande interesse em aprovar a reforma da Previdência. Ele está orientando Bolsonaro em como proceder no Congresso e esvaziou o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni", avalia o cientista político Adriano Oliveira, professor da UFPE.

Guedes
No caso de Paulo Guedes, o grande teste será a aprovação da Previdência, cuja tramitação ainda não começou porque o Congresso pressiona pelo texto que trata dos militares. Liberal convicto, o ministro teve que voltar atrás no plano de apresentar uma PEC que desvincula e desindexa o orçamento da União, dos estados e dos municípios - que ficou conhecida como PEC do Pacto Federativo - para evitar que a pressão contrária à revisão de percentuais mínimos das despesas com saúde e educação contaminasse a tramitação das mudanças na aposentadoria.

"O grande desafio do governo Bolsonaro será a reforma da Previdência. Os militares são favoráveis. Paulo Guedes a tem como sua principal bandeira. E você só tem como dar resultados econômicos a partir dessa reforma", lembra Adriano Oliveira. Ele não descarta, porém, que atitudes da ala mais ideológica possa trazer instabilidade para o texto.

Arrumação
Para Priscila Lapa, o primeiro ano do governo ainda será muito marcado por uma dificuldade de arrumação, embora a tendência seja de essas disputas se acomodarem com o tempo. "O governo ainda vai precisar de muitos momentos de arrumação. Dependendo do capital político gasto na aprovação da Previdência, o presidente também pode ser obrigado a fazer novos ajustes na composição política da sua gestão, inclusive para acomodar demandas dos parlamentares", afirma.

Fonte :Blog da Folha de PE.

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